30 de março de 2026

O Rio que Precisamos Plantar: Do Paisagismo à Justiça Climática

Em artigo, Tainá de Paula, vereadora e secretária de Meio Ambiente e Clima da prefeitura do Rio de Janeiro entre os anos de 2023 e 2026, defende uma mudança na política de arborização da cidade. A proposta deixa para trás a lógica do paisagismo e passa a tratar o verde urbano como ferramenta de justiça climática, resiliência e reparação territorial

Por: Tainá de Paula

Durante décadas, o Rio de Janeiro olhou para suas árvores como molduras de um cartão-postal. A estrutura de planejamento que herdamos, cujas raízes ainda bebiam na fonte dos anos 1920, entendia a arborização urbana apenas sob a ótica do embelezamento e da composição da paisagem. Era uma visão contemplativa, feita para quem vê a cidade de longe, mas insuficiente para quem a vive no asfalto quente. Naquela época, a árvore era um adereço; hoje, ela é um equipamento de sobrevivência e um direito fundamental.

Estamos promovendo uma ruptura histórica.

O Plano de Arborização de 2016 foi um marco importante, mas a velocidade das transformações urbanas e a vanguarda da agenda climática liderada pelo prefeito Eduardo Paes exigiram que fôssemos além. O plano serviu de base, mas precisava ser atualizado para conversar com a nova infraestrutura da cidade e com os desafios de um Rio que agora prioriza a resiliência em cada obra. Não se trata apenas de plantar; trata-se de enfrentar o “cabo de guerra” com a infraestrutura subterrânea e aérea que atravessa a cidade. É uma conta que não fecha se não mudarmos a lógica do planejamento.

Neste cenário, o Rio de Janeiro se alinha ao que há de mais avançado no debate global e nacional, dialogando com as diretrizes do novo Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU). Saímos da agenda do déficit arbóreo stricto sensu — aquela contagem matemática fria de quantas mudas faltam — para uma agenda de intervenção climática integrada. O nosso novo recorte sobrepõe camadas complexas: áreas de fragilidade ambiental, pontos passíveis de alagamento e o imenso desafio das concessionárias de serviço público que, historicamente, disputam espaço com as raízes e copas.

A partir do nosso Plano de Desenvolvimento Sustentável, criamos uma estratégia inédita de corredores. Os Corredores Verdes e Azuis reúnem nossas Unidades de Conservação e recursos hídricos, criando caminhos para a biodiversidade. Já os Corredores Laranjas e Marrons versam sobre a infraestrutura bruta: são as vias onde o desafio é o conflito com a rede elétrica e as galerias. Essa distinção é fundamental porque admite que a cidade não é uma folha em branco; ela é um organismo complexo que exige soluções diferentes para cada metro quadrado.

Essa integração é o que permite ao programa Planta+Rio atuar com precisão cirúrgica. Começamos por Ramos, na Zona Leopoldina. O bairro passou por projetos de urbanização no passado, como o Bairro Maravilha, onde golas de plantio foram implementadas, mas as árvores nunca chegaram. Estamos, portanto, começando por atacar um passivo histórico em áreas que já têm infraestrutura para receber o verde. E fazemos isso com um diferencial: a participação popular. A população carioca tem sido nossa maior aliada, ajudando a identificar golas vazias e áreas que o satélite nem sempre alcança.

Esse novo olhar para a floresta urbana carrega o selo de um legado que venho construindo ao longo de toda a minha trajetória. Como arquiteta e urbanista, sempre defendi que a cidade deve ser pensada a partir de quem está na margem. Trazer a arborização para o centro da gestão ambiental não é apenas um ato administrativo, é a continuidade de uma luta por justiça racial e ambiental. Meu compromisso sempre foi democratizar o acesso ao bem-estar urbano, garantindo que o “frescor” da árvore não seja um privilégio da Zona Sul, mas uma realidade em cada beco e viela do subúrbio e das favelas. É transformar a técnica urbanística em ferramenta de reparação histórica.

Mas o desafio do Rio de Janeiro é único e exige honestidade técnica. Existem ruas em Madureira, em Bangu ou na Pavuna onde o modelo tradicional de árvores na calçada é fisicamente impossível. E é aqui que entram a inovação e o intercâmbio de boas práticas. Estamos olhando para exemplos de sucesso em outras capitais: como os jardins de chuva de São Paulo, que combatem alagamentos, e os corredores ecológicos de Curitiba e Recife.

Para o Rio, o novo Plano de Arborização Urbana trará outras tecnologias para onde a árvore não cabe. Se o solo está saturado de tubulações, usaremos a despavimentação para criar áreas permeáveis; usaremos paredes verdes e tetos verdes nas favelas. Precisamos transformar a laje da periferia em aliada do conforto térmico. O Plano deve dizer claramente: onde não pudermos plantar árvores, plantaremos tecnologia e resiliência.

Hoje, nenhum técnico — seja biólogo, engenheiro florestal ou urbanista — pode afirmar o déficit real de uma cidade se não considerar sua capacidade de suporte. Nossa política municipal está sendo revisada para ser, acima de tudo, uma ferramenta de justiça climática. O Protocolo de Calor Extremo, criado por nossa gestão, guia nossas prioridades: precisamos arborizar primeiro onde o termômetro castiga mais.

Priorizar as áreas mais quentes não é uma escolha técnica isolada, é um dever ético. O Rio de Janeiro do futuro não pode ser apenas bonito na orla; ele precisa ser respirável, fresco e seguro para quem mora no subúrbio e nas favelas. O clima já mudou, e a nossa forma de governar a cidade finalmente alcançou essa nova era.

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